Aluno: Francisco Alves Quirino
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Mais um texto finalista da Olimpíada de Língua Portuguesa em 2014: a crônica “Feira: cheiros, temperos e versos”.
Aluno: Francisco Alves Quirino
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Uma das memórias literárias finalistas em 2014 é de aluna maranhense: "Pedra 'consinada'"
Pedra “consinada”
Aluna: Maria Clara Leal de Sousa
Hoje acordei cedinho, passei um café e fui para o quintal botar milho para as galinhas. Nem percebi que encostara naquela pedra preciosa trazida das cacimbas nos tempos de dona Noca, época em que quem tinha uma tropa de jumento era rico. O tempo passou sem que eu percebesse e lá se foram mais de setenta anos da minha vida, todos vividos nesta pequena cidade de São João dos Patos, no sertão maranhense.
Cá, sentada na velha cadeira de balanço, balançando a minha memória, relembro todas as histórias que vivi naquela casa de taipa, porta de talo de coco amarrada com um cordão velho, construída pelo meu avô. Uma saudade toma conta de mim e me embala rumo às minhas mais doces memórias de criança.
Ouço passos silenciosos dentro de casa na caída da noite. Sinto um toque suave no meu rosto e o perfume inconfundível da minha mãe toma conta do quarto velho e abafado. Acordei de manhãzinha com a candeia na mão para acender as trempes, pensando que era apenas um sonho bom, mas na realidade ela havia mesmo ido embora, e eu fiquei com meu pai, que trabalhava vendendo arroz, feijão e milho nas redondezas. As viagens eram demoradas, porque de vez em quando o jumento amuava e a labuta era grande para ele levantar.
Eu completava de 9 para 10 anos quando comecei a subir a ladeira para lavar roupa nas cacimbas, perto do olho-d’água. Muito antes de o sol nascer, as mulheres colocavam três caminhos de água e só depois saíam com suas trouxas de roupa na cabeça e uma penca de meninos correndo nas veredinhas atrás do “churrim” – cachorro vira-lata –, a poeira cobrindo o mundo e elas brigando com a gente. De longe dava para ouvir o tac, tac, tac da roupa batendo nas pedras e ressoando mato adentro.
De primeiro era assim: as mulheres mais velhas possuíam sua pedra “consinada”. Quando chegavam à cacimba e havia outra mulher lavando roupa no seu lugar, ela colocava a trouxa de roupa no pé da pedra e a outra logo levantava e ficava esperando até que pudesse terminar o trabalho. Imagine eu, na minha meninice, brincando com a espuma de sabão, correndo, pulando nas águas frias e cristalinas das cacimbas. O tempo passando e eu crescendo, até o dia em que finalmente ganhei a minha pedra preciosa. A felicidade foi tanta que nesse dia lavei até a minha alma.
Naquele tempo não havia escova, sabão em pó ou qualquer outra coisa que pudesse nos ajudar. A roupa era esfregada na mão, batida na pedra e colocada no quarador até que ficasse limpa como o céu no mês de agosto. O cheiro amargo do sabão de tipi, feito nas gamelas, tomava conta de nós e dos meninos que se escondiam atrás dos pés de jatobás para olhar as mulheres nuas tomando banho.
O rebuliço de mulheres correndo e se escondendo era grande, mas, no final, tudo terminava em graça. “Eita meninos danados do capeta, num tem quem possa com essas tranca ruim”, dizia dona Deusina. Depois daquele banho gostoso era hora de comer banana com farinha e fazermos o mesmo caminho de volta. À noite, o ponto de encontro para a prosa era no único poste da cidade que ficava bem ali na esquina. Sentada no tamborete, enquanto os outros papeavam, eu admirava a beleza daquela candeia que não precisava de querosene.
Agora durmo até mais tarde, levanto e ligo a máquina de lavar roupa, que jamais pensei um dia possuir. Já velha e com a vista curta, avisto-a no fundo do meu quintal, aquela que mandei buscar de tão longe para ficar ao meu lado, aquela que sustentou os meus seis filhos, aquela que me faz mergulhar nas minhas lembranças: minha pedra preciosa, que está “consinada” no meu coração.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Textos finalistas da Olimpíada de Língua Portuguesa 2014: dois poemas
Aluna: Amanda Gabrielly Dutra Alves
As crianças ricas no shopping comprar,
Lá de longe eu vi
As crianças pobres no barranco a chorar.
As crianças ricas um tacacá saborear,
Lá de longe eu vi
As coitadinhas pobres na poeira se apagar.
Os ricos no alagadão em sua lancha ostentar,
Lá de longe eu vi
Os pobres para abrigos se mudar.
Lá de longe eu vi
As crianças ricas ovo de Páscoa ganhar,
Lá de longe eu vi
As crianças pobres o barro moldar.
As crianças ricas só estudar,
Lá de longe eu vi
As crianças pobres também da família cuidar.
Muitas mudanças o Acre passar,
Mas o rico sempre no domínio
E o pobre, com as lutas, sua mão calejar.
Escola: Escola Padre Carlos Casavecchia – Rio Branco (AC)
Aluna: Miriã de Souza Nascimento
Jeca, o caipira doente,
As linhas de Lobato
Conversam com nossa gente.
Trocaram “Mundo Novo”
E puseram “Urupês”,
Com a aceitação de seu povo.
Continuou sua missão,
Produzindo café forte
Para o resto da nação.
E depois veio o limão
Para sustentar as famílias
Que não tinham outra opção.
Outro cenário surgiu
E Urupês se transformou
Num alambique do Brasil.
Há muita cana e limão,
Roda muito caminhão,
Produzindo etanol
Para toda esta nação.
Perto do rio Cubatão,
Hoje é urbana e o que mais tem
É fábrica de confecção.
Ninguém vê que a culpa é sua,
Em tempos de tanta seca,
Jogam água até na rua.
Por isso, é nas entrelinhas
Que eu posso assinalar:
Literatura e costura,
Os dois focos do lugar.
Que se preserva a memória
De um município pequeno
Onde até o mal é mais ameno.
Escola: E. M. E. F. Professor Athayr da Silva Rosa – Urupês (SP)
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Corruptos
Desenho: Jô Oliveira - Burgomestre Leo Bardo
sábado, 6 de outubro de 2007
Alunos e professores do CEEFM Newton Bello começam a preparar a Feira de Ciências
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Onde está o amor?
Uns afirmam que seu corpo teria sido encontrado em meio aos destroços provocados pela queda de um míssil.
- Erramos o alvo - tentou justificar fria e laconicamente um diplomata.
Outros dizem que, na verdade, o Amor foi encontrado morto por um catador de lixo, que avisou às autoridades. De olhos abertos, solícitos de piedade, o corpo encolhido. Dormira na rua; morreu de frio.
Alguns divergem dessas versões. Ele teria morrido sem sofrer tanto, dizem. Após jogar dominó com os companheiros de asilo, recolheu-se contente ao quarto. De manhã, na hora do café, sentiram sua falta. Continuava na cama. Na boca, um sorriso. Num dos olhos, estranhamente, uma lágrima parada.
- Morreu em paz - foi o comentário.
A família não compareceu ao enterro. Por falta de tempo, talvez.
Discute-se, porém, a possibilidade d'Ele não ter morrido.
Não estaria passando bem, é verdade. Mas resistiria bravamente às maquiavélicas tentativas de exterminá-lo da face da Terra.
Desconfia-se que algumas pessoas estariam tratando de seus ferimentos num abrigo antimíssil. E que, apesar de quase não saírem à luz do dia, e o alimento ali ser escasso, o Amor rejuvenescera suas esperanças. O Amor teria afirmado, serenamente, que a guerra só lhe dava mais forças para continuar vivo, resistindo sorrateiramente nos corações humanos.
Há também a suspeita de que inúmeras pessoas compartilham com Ele do calor da noite. E Ele inflama seus corações de generosidade e de um corajoso otimismo.
Acredita-se que há um bom número de lares que não O expulsaram do seu convívio. Nessas famílias, o Amor continua encarando sem alarde as emoções que lhe tocam: rindo, chorando, olhando, gozando, entristecendo... Nocauteando com um humor fino e peculiar as forças adversas: ódio, inveja, rancor...
Não. O Amor não morreu.
Vive dias difíceis, sem dúvida. Mas pulsa. Pulsa teimosamente.
E as ondas do seu pulsar atingem ouvidos e corações sensíveis.
Organiza-se subversivamente em catacumbas, como os primeiros cristãos. Questiona o poder e seus representantes, cujo ódio ao povo transparece em todos os atos. Esse povo que só pede algumas migalhas de amor, nada mais.
O amor está vivo sim. Pode estar pensativo, pouco à vontade, preocupado, inquieto em seu imo. Filosofa: como unir de novo o ser humano à sua mãe Terra; como organizar um governo onde o Ministério do Amor seja o mais importante dos ministérios; como espalhar aos quatro ventos a idéia, esquecida, espezinhada, de que a fraternidade é que é o óbvio, não a guerra.
Silencias um pouco. Ouves. Ousando levantar a voz contra a anti-música das guerras e chacinas, bocas sussurram planos para a eternidade e se beijam.
Ouves. Um balbuciar de criança e o mistério do seu sorriso.
Ouves. São planos comuns que braços sofridos fraternalmente tentarão erguer. Estão com fome. Mas sonham.
Tudo isso só prova uma coisa: o Amor não morreu.
Gilcênio, 17/05/1999.
segunda-feira, 25 de junho de 2007
A educação pela greve
Gilcênio Vieira Souza
Apesar de ser um direito constitucional, a greve ainda é vista em nosso país como algo imoral. Os grevistas são geralmente retratados como pessoas desalmadas, que não se importam com aqueles que deles dependem. E se a greve for na educação, nem se fala: os professores são tratados como criminosos, que não ligam para os alunos, para o ano letivo, etc etc.
Na verdade, a greve faz parte do direito democrático de protestar contra determinada situação e exigir mudanças. Trata-se de um recurso usado pela classe trabalhadora para se opor à exploração ou a falta de respeito de que é vítima, por parte dos patrões ou do Estado. Como disse Frei Beto: “Ricos, quando fazem pressão, estendem à mão ao telefone e são ouvidos pelas autoridades e pela mídia. Já os pobres não têm alternativa senão a manifestação pública, que deveria ser por todos reconhecida como direito intrínseco ao grande sonho brasileiro: a democracia participativa”.
Vive-se um momento histórico em que se questiona a educação tradicional, aquela em que o professor ordena – “copie” – e não aceita transgressões à sua autoridade. Atitudes como essa desrespeitam o aluno e seus saberes e inteligências. Por outro lado, fala-se muito em educar para a vida, educar para a cidadania. Porém, muitos professores ainda se deixam cair nas armadilhas do sistema escolar e suas pressões por notas e resultados, que invalidam todo o discurso em prol da cidadania.
Uma greve de professores é um ato educativo. Quando educadores deixam de dar aula para fazer greve, eles não estão se omitindo do seu trabalho. Pelo contrário: estão defendendo condições dignas, para que o trabalho seja feito com motivação e prazer. Mais do que isso: estão mostrando aos seus alunos que a educação não acontece só em sala de aula (aliás, às vezes, a sala de aula é um disfarce para que se imagine que a educação esteja acontecendo). Se não mostrarmos aos alunos que eles podem e devem intervir na realidade, procurando torná-la mais digna à existência humana, para que serve estarmos todo dia na sala de aula?
Mais do que meras palavras, com o exemplo da greve os educadores estão dizendo aos alunos que ser cidadão é exigir respeito e melhores condições de vida – esperando assim que das carteiras escolares não saiam seres cabisbaixos, mas homens e mulheres que tenham a coragem de exercer sua liberdade de pensamento e de ação.


